por não ter esperança de beijá-lo
eu mesmo, ou de abraçá-lo,
ou contar-lhe do amor que me corrói
o coração vassalo,
vai tu, poema, ao meu
amado, vai ao seu
quarto dizer-lhe quanto, quando dói
amar sem ser amado,
amar calado.
beijai-o vós, felizes
palavras que levíssimas envio
rumo aos quentes países
de seu corpo dormente, rumo ao frio
vale onde vaga a alma
liberta que na calma
da noite vai sonhando, indiferente
à fonte que, de ardente,
gera em meu rosto um rio
resplandecente.
no sonolento ramo
pousai, palavras minhas, e cantai
repetindo: eu te amo.
ele, que dorme, e vai
de reino em reino cavalgando sua
beleza sob a lua,
encontrará na voz de vosso canto
motivo de acalanto;
e dormirá mais longe ainda, enquanto
eu, carregando só, por esta rua
difícil, meu pesado
coração recusado,
verei, nesse seu sono renovado,
razão de desencanto
e de mais pranto.
entretanto cantai, palavras: quem
vos disse que chorásseis, vós também?
na carne feridas e inchaços advindos do acidente que me fez entrar em estado de choque seguido de uma crise de choro com a cabeça repleta de imagens e lembranças comuns àqueles que estão à beira da morte. trauma. no peito além dos hematomas causados pelo violento esforço do cinto de segurança em me preservar a vida a dor de mais um acidente - aquele que faria murchar as flores do jardim recém-nascido. lembranças amargas de palavras atiradas ao vento do hálito envenenado. palavras transportam desejos. carros transportam homens. foram dois acidentes. um igual ao outro similares em violência e intensidade. foram dois corpos que invadiram-se (um invadiu o outro des-relativamente) chocaram-se machucaram-se e agora encontram-se recolhidos concentrados em suas próprias recuperações. pausa para o choro quieto e íntimo. pausa para o medo das perdas e dos danos. pausa para a espera na sala de espera daquele lugar que mistura o cheiro do éter da cura com o cheiro daquilo que já parece desenganado sem volta morto... pausa para a esperança de que tudo não passou de um grande susto.
..."a inocência não é desculpa. é preciso perder a inocência de vez.
estou te esperando."... _____________________________________________________________